era sexta-feira, véspera do Dia da Liberdade, e os carros ávidos de fim-de-semana grasnavam na Rua Ampla, agora sempre atulhada ao cair da noite devido às obras do Paço e à reestruturação do passo da Cidade Grande. Nessa rua houve em tempos um parque de estacionamento a céu aberto, cujo acesso, entretanto fechado a grades, se fazia por um alpendre suficientemente grande para nele agora caberem pequenas relíquias encontradas em cantos improváveis nas ruas.
Todos os dias passo por essas grades e todos os dias sorrio pasmada ao que vejo: uma casa a compôr-se entre duas paredes e um tecto a descobrir o céu nu sobre o antigo parque de estacionamento. caixotes a fazer de prateleiras, caixas feitas armários, papéis empilhados, canetas numa cuidada arrumação, pequenos bibelots de sala de avó, um telefone preto igual ao que havia na casa da minha infância – a quem se liga aquele telefone sem fios ligados ao mundo? – pacotes de comida para cão, que a lealdade do dono distribui justiça a quem está sempre do seu lado.
era sexta-feira, véspera do Dia da Liberdade, e eu, a chegar ao lado do parque de estacionamento agora habitado, parei para tirar o telemóvel da mala, dois segundos, o tempo de ouvir, a cortar o grasnar dos carros na rua ampla, a alegria de uma daquelas músicas dos anos 80 com cheiro a festa do liceu. e o sol punha-se lá ao fundo, detrás dos prédios que o parque de estacionamento aberto deixa avistar, e os raios dourados arrastavam-se lânguidos no alpendre e desenhavam no chão a sombra de uma mesa posta, uma garrafa de vinho, um homem e uma mulher a conversarem animadamente num jantar com banda sonora de romance. e eu, de telemóvel na mão, tive o imediato impulso de querer prender aquele instante na câmara, de tão inesperado quanto perfeito que era, mas o respeito pela intimidade alheia, tão candidamente mostrada, fez-me aquietar a mão. e fui-me embora a pensar na crise especulativa que tanto se apregoa, e pensei que não é preciso muito para fazer tanto.