Dreamweaving at Sunrise

May 25, 2008

the looking glass

como se define aquela que define? eu é um corpo, é um gesto, é um som? eu sou aquilo que permanece na memória dos outros? sou o oxigénio que consumo, o espaço líquido que ocupo, o recorte quente que deixo na cama onde me deitei? sou um risco, ou um tracejado?

a definição assenta na comparação? na transposição? na metáfora? se eu fosse um fruto, se eu fosse uma música, se eu fosse um quadro? seria ainda eu?

Uma vez já fui assim.

aber Einmal ist Keinmal.

 

^ Balthus

dentro do espelho partido, o objecto quase

Filed under: Uncategorized — Laura Lai @ 6:58 pm

comecei dezenas de histórias
e não terminei nenhuma,
não sei para onde vão as minhas personagens
porque começam a falar
e logo se calam.
no papel sucede-me o mesmo que fora dele:
a minha vida é um punhado de começos
suspensos

 

♣ Miriam Reyes
♦ Mario Testino

 

 

if you find me

hide me

i don’t know where i’ve been

May 19, 2008

Filed under: Uncategorized — Laura Lai @ 2:31 pm

 

ela era tão doce

tão doce tão doce

que um dia caramelizou

e endureceu colada ao chão.

 

 

 

ξ Tamara de Lempicka

May 13, 2008

Filed under: Uncategorized — Laura Lai @ 6:57 pm

hoje.

Ai, ai, ai, minha machadinha
Ai, ai, ai, minha machadinha
quem te pôs a mão, sabendo que és minha.
quem te pôs a mão, sabendo que és minha.

Sabendo que és minha, também eu sou tua,
Sabendo que és minha, também eu sou tua,
salta machadinha, para o meio da rua.
salta machadinha, para o meio da rua. ©

 

[ No meio da rua, não hei-de eu ficar
No meio da rua, não hei-de eu ficar
Hei-de ir à roda, buscar o meu par
Hei-de ir à roda, buscar o meu par ]

 

 

 

 

 

With an envelope,
We'll enter buildings we might touch,
I've got souvenirs but yesterday can't mean too much,

Have we missed an opportunity?

Whispers Chinese leaves a message, leaves a metaphor,
For what once was gold and once was rich and now is poor,
Have we missed an opportunity?
And the trees lean to lend,
Can I fold you in fourteen ways to depend not defend?
 
 

Amanhã sei lá.

 
 
 
 

© (adendas várias. li por aí que quando uma música não nos sai da cabeça devemos atentar na letra e na mensagem que supostamente nos está a transmitir. e o que dizer quando somos surpreendidos a trautear este ícone do cancioneiro infantil? tanto pior, quando se ajusta perfeitamente ao momento, com uma crueza tão pueril quanto certeira. e também não me parece muito católico educar uma criancinha que é bom e bonito e faz bem ”quem te pôs a mão sabendo que és minha”, repetido como um mantra na inconsciência da tenra idade, para depois andar uma pessoa o resto da vida a braços com os complexos complexos de Otelo… e finda a tarde com Souvenirs em repeat mode. é o que resta, de resto. Souvenirs, souvenirs, o momento que acabou de ser passado.)

May 12, 2008

Filed under: Uncategorized — Laura Lai @ 8:31 pm

rasgo-te em sangue no silêncio da tarde que não chega
e cumpres-te em grito na areia seca dos meus dedos.

 

 

 

May 11, 2008

Filed under: Uncategorized — Laura Lai @ 6:22 pm

May 7, 2008

Filed under: Uncategorized — Laura Lai @ 9:06 am

je ne veux pas travailler
je ne veux pas déjeuner
je veux seulement oublier
et puis je fume

¤ edith maybin

May 5, 2008

Respira.

Filed under: Uncategorized — Laura Lai @ 10:04 pm

 

 

Elinor Carucci

May 1, 2008

my blueberry nights

Filed under: Uncategorized — Laura Lai @ 6:48 pm

“How do you say goodbye to someone you can’t imagine living without? ”

” Sometimes, even if you have the keys those doors still can’t be opened. Can they? 
Even if the door is open, the person you’re looking for may not be there.”

 

.

.

 

eu nunca fui rapariga de cinema. dantes não percebia como as pessoas podiam gostar tanto a ponto de verem repetidas vezes as mesmas cenas, decorarem linhas e adorarem actores, criadores, realizadores, produtores. aos poucos, comecei a descobrir películas que me prendiam. escassas, raras, mas comecei eu própria a rever imagens, às vezes em boa companhia, outras mesmo sózinha. descobri o meu cinema lentamente, e o que começou por ser uma experiência ao agrado dos sentidos tornou-se um vício bom. agora compro filmes num furor compulsivo, que raciono como uma relíquia. não os consumo desenfreadamente, poupo cada um deles para uma determinada hora, para uma certa noite de solidão, de inspiração ou de simples necessidade de evasão, para uma tarde longa ou uma madrugada de espertina. surpreendo-me comigo mesma, que agora chego a ir ao cinema mais do que uma vez por semana, que sigo com uma curiosidade ávida as notícias de últimas estreias e que, mais ainda me espanto, o faço como uma fuga secreta, sem que ninguém saiba, com um prazer egoísta que não quero partilhar com mais ninguém. continuo a não ser rapariga de blockbusters, e continuo a não saber nomes de quem fez o quê e quando e sobre e aonde. mas sou uma espectadora deleitada, incessantemente sequiosa de mais e mais e mais imagens coloridas a puxar-me para dentro de mim.

é esse o segredo que me faz preferir ir sózinha. cada vez mais me entendo em como estar incógnita numa sala de cinema escura é para mim o equivalente a ficar ébria. permite-me aquele estado de vigília em que as emoções se baralham e encontram o caminho que as norteia, o transe em que consigo encontrar-me com nitidez numa realidade difusa.

e gosto, gosto, gosto dessa sensação.

 

kar-wai ocidentalizado não me estremeceu dos pés à cabeça, mas encaixa tão bem em tanta coisa. na singeleza dos planos, as minhas tartes de mirtilho são a promessa de manter a mente afastada do que a vicia. as histórias dos outros, as angústias dos outros. as minhas demandas furtivas, os meus gestos rápidos para fora das janelas que me protegem, que perdem tão rapidamente o vigor e a certeza e se apressam a recuar para o lugar seguro. a canção com que adormeço o medo monstro que me fez perder o contacto com a pele ao meu lado. a descrença na possibilidade da comunhão. o estar cansada de seguir arco-íris e em vez de potes de ouro encontrar sempre apenas chuva a filtrar a luz do sol.

e no entanto, continuo a viver, numa manobra de diversão evasiva que me enche de vida na vida que me rodeia, por fora e por dentro.

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