“How do you say goodbye to someone you can’t imagine living without? ”
” Sometimes, even if you have the keys those doors still can’t be opened. Can they?
Even if the door is open, the person you’re looking for may not be there.”
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eu nunca fui rapariga de cinema. dantes não percebia como as pessoas podiam gostar tanto a ponto de verem repetidas vezes as mesmas cenas, decorarem linhas e adorarem actores, criadores, realizadores, produtores. aos poucos, comecei a descobrir películas que me prendiam. escassas, raras, mas comecei eu própria a rever imagens, às vezes em boa companhia, outras mesmo sózinha. descobri o meu cinema lentamente, e o que começou por ser uma experiência ao agrado dos sentidos tornou-se um vício bom. agora compro filmes num furor compulsivo, que raciono como uma relíquia. não os consumo desenfreadamente, poupo cada um deles para uma determinada hora, para uma certa noite de solidão, de inspiração ou de simples necessidade de evasão, para uma tarde longa ou uma madrugada de espertina. surpreendo-me comigo mesma, que agora chego a ir ao cinema mais do que uma vez por semana, que sigo com uma curiosidade ávida as notícias de últimas estreias e que, mais ainda me espanto, o faço como uma fuga secreta, sem que ninguém saiba, com um prazer egoísta que não quero partilhar com mais ninguém. continuo a não ser rapariga de blockbusters, e continuo a não saber nomes de quem fez o quê e quando e sobre e aonde. mas sou uma espectadora deleitada, incessantemente sequiosa de mais e mais e mais imagens coloridas a puxar-me para dentro de mim.
é esse o segredo que me faz preferir ir sózinha. cada vez mais me entendo em como estar incógnita numa sala de cinema escura é para mim o equivalente a ficar ébria. permite-me aquele estado de vigília em que as emoções se baralham e encontram o caminho que as norteia, o transe em que consigo encontrar-me com nitidez numa realidade difusa.
e gosto, gosto, gosto dessa sensação.
kar-wai ocidentalizado não me estremeceu dos pés à cabeça, mas encaixa tão bem em tanta coisa. na singeleza dos planos, as minhas tartes de mirtilho são a promessa de manter a mente afastada do que a vicia. as histórias dos outros, as angústias dos outros. as minhas demandas furtivas, os meus gestos rápidos para fora das janelas que me protegem, que perdem tão rapidamente o vigor e a certeza e se apressam a recuar para o lugar seguro. a canção com que adormeço o medo monstro que me fez perder o contacto com a pele ao meu lado. a descrença na possibilidade da comunhão. o estar cansada de seguir arco-íris e em vez de potes de ouro encontrar sempre apenas chuva a filtrar a luz do sol.
e no entanto, continuo a viver, numa manobra de diversão evasiva que me enche de vida na vida que me rodeia, por fora e por dentro.