“Quando eu morrer voltarei para buscar os momentos que não vivi junto ao mar.”
só agora posso falar, o vento amainou. existe perfeição em certas esquinas da vida, e nada faz pensar na vida como a morte. findou o dia, findou a semana, e o sol queimava. da estrada olhava as casas e o céu na encosta da aldeia onde a voz dele ecoava tantas e tantas vezes, quando o nosso carro serpenteava pelas estradas apertadas e aquelas casas se pontilhavam no verde da serra.
era pequena, mas o olhar lembro-me dele sempre o mesmo. o que se espelha nos olhos da minha mãe, e gosto de pensar que nos meus também, nas linhas do mesmo sangue. foi sempre livre, livre além do julgamento e da compreensão dos outros. errante, enfim liberto das botas que não o magoarão mais. as dores que deixaram de existir deixaram a voz que fizeram bradar. a mesma certeza bruta, emotiva, que amo em quem mais amo. nunca alcançamos a profundeza encapsulada no peito dos outros. mas ele cantava-a num grito, até à despedida justa, tão simplesmente certa nos detalhes mais pequenos em que atentamos.
a paz do alívio nessa liberdade que veio de onde os nossos braços ainda não chegam nem os olhos entendem. a vida é sempre a forma que as mãos dão ao barro que nos é emprestado. alta ou forte ou dura, mas desfaz-se na água antes de entrar no forno.