a quem vive de silêncios.
as primeiras horas da manhã de segunda-feira são, por natureza, as mais pesadas de toda a semana. e os meus headphones sucumbiram assim, sem que nada o fizesse prever, num místico prenúncio do que a semana seria. o meu cabelo cortado no sábado – e só eu sei o que me trespassa a alma cortar o cabelo – exibia um lado esquerdo inegavelmente diferente do lado direito. as nuances magenta resumiram-se a uma auréola vermelha flamejante no alto da cabeça. e estava com o período. esta semana aconteceu tanta coisa. mudei de telemóvel. odeio adaptações. apego-me a certos objectos como se fossem órgãos vitais. dói-me separar-me de mensagens, de imagens, de sons que me trazem recordações de um período em que o sol começou a brilhar depois de longas trevas. nesta semana aconteceu tanta coisa. tanta coisa. a pessoa mais importante da minha vida largou-me uma bomba nos braços. tão inesperada quanto boa, mas eu fiquei aturdida sem saber assumir o papel que nunca antes tivera, sem saber como ser eu a melhor pessoa para a pessoa mais importante da minha vida. o meu melhor colo do mundo precisou do meu colo e eu, mimada que sou a refugiar-me sempre no regaço dela, desejei ser maior e mais forte e poupá-la de todas as crueldades da vida. a minha mãe foi assaltada. nada de grave, dentro do que poderia ter sido. mas odeio quem quer que faça mal à minha mãe, ao de leve que seja. comprei a villa no farmville. e agora que cheguei “ao” objectivo, o que me resta? expandi o meu café. percebi que me exponho mais do que julgo, mesmo quando me julgo invisível. percebi que já não morro de amor, e que por partir uma andorinha não acaba a primavera. a minha bebé, a quem eu ensinei a cantar “do- a deer, a female deer” tem 15 anos e é minha amiga no facebook. qualquer dia diz-me que está grávida. mandei a minha patroa pastar, como lhe compete. e no dia seguinte ela disse que eu sou um exemplo a seguir. muitos lol. sou adicta à nokia, não gosto do meu telemóvel novo. não gosto de adaptações, preciso que o mundo seja certo para não me sentir sem pé. renovei a minha lista de contactos, perdi tantos que estavam a criar teias na minha lista. tenho a minha música já arrumada no sítio certo, direitinha como gosto que seja a minha vida. tenho uma quinta faustosa. o meu café prospera copiosamente. acertei os sons, personalizei os toques. estou feliz com a união, com o que para mim é mais importante no mundo, estou feliz com o coração dos que amo. aconteceu tanta coisa, tanta coisa. à minha volta tudo outonece. e no coração, que sempre foi inverno, uma flor em botão aguarda pacientemente que chegue a minha primavera.
Já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
Vasco Graça Moura
Sylvia Ji
you said i must eat so many lemons ’cause i am so bitter.

não sei se sou amarga por beber tanta limonada, se gosto tanto do sabor do limão por ser o que melhor sei dentro de mim.

não posso perceber se sinto a tua falta, porque nunca cheguei a perceber quem tu eras. mas é impossível não perceber que sinto falta de quem tu eras para mim.
Quando o dia entardeceu
e o teu corpo tocou
num recanto do meu
uma dança acordou
e o sol apareceu
de gigante ficou
num instante apagou
o sereno do céu
e a calma a guardar
o que há em mim
o desejo a contar
segundo o fim
foi um ar que te deu
e o teu canto mudou
e o teu corpo do meu
uma trança arrancou
o sangue arrefeceu
e o meu pé aterrou
minha voz sussurrou
o meu sonho morreu
dá-me o mar, o meu rio,
minha calçada
dá-me o quarto vazio
da minha casa
vou deixar-te no fio
da tua fala
sobre a pele que há em mim
tu não sabes nada.

Ela pensava que estava a salvo. Tinha o coração tão partido que pelo menos dessa culpa já te libertavas. Mas o que ela ingenuamente ignorava era que o coração, mesmo quando a escorrer em sangue, automaticamente se auto-reconstrói e se oferece, em estado virgem, pronto para ser dilacerado uma e outra e outra vez.

Follow your common sense
You cannot hide yourself
Behind a fairytale forever and ever
leve, despida de preconceitos, fresca, uma peça que vai bem com o verão mesmo nestas noites ainda frias. o texto é muito bom, tem tanto de humorístico quanto de sensível e profundo. a guida maria destaca-se, sem dúvida, pela tocante interpretação, a ana brito e cunha despertou-me um interesse recente e aqui está p-o-d-e-r-o-o-o-s-a e, convenhamos, ter a são josé correia a gritar “lambe-me!!!!!” bem à nossa frente… é assim qualquer coisa!!!
agora que, neste jogo de xadrez comigo mesma em que insistentemente me atraiçoo, não vejo outra saída que não seja ir embora, mais uma vez.
e depois, a permanente culpa de saber que estou a ser injusta, a eternidade das minhas indecisões, a incerteza do que quero e a certeza de não conseguir lidar com as consequências últimas de uma escolha, e acima de tudo, o medo de me despenhar, uma vez mais, no vazio imenso da minha inaptidão para viver.

acabo por ser sempre um lugar de passagem na vida das pessoas. entrem, puxem uma cadeira, sentem-se e sintam-se à vontade para partirem em branco, quando estiverem novamente cheios de renovadas energias. uma espécie de estação de serviço, ao vosso dispôr.
eu devia ser um hospital para corações enfermos, não fosse a insustentável ironia de o meu estar num coma profundo desde que me lembro de não o ouvir bater. ele cavalga.

ardem-me no rosto os leitos das lágrimas, e em sal se me enrola a pele aos fiapos desprendida. inefável, tento desatar os braços das teias que enrolei em cada veia, e o fígado contorce-se-me numa ansiedade incerta. procuro, sem conseguir abrir os olhos que me ardem, um novo espaço para ser, sem conseguir calar o cérebro pelo ínfimo de tempo necessário para distinguir os gritos das falas mudas. preciso de uma nova morada. não posso mais habitar esta dor indigesta que me estala no peito.

- E então, o que é que fazes para ganhar a vida?
- Vendo as minhas horas, ao preço da chuva.

cause i like the sense of falling

and i like the sense of you.

for the Pin Cushion Queen.
When she sits alone on her throne
Pins push through her spleen.

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